sábado, 29 de dezembro de 2007

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

domingo, 1 de julho de 2007

Autobiografia de Nadir Afonso

A minha vida é sobretudo relevante pelo que não acontece... é uma espécie de anti-autobiografia.

Nasci em Chaves em 4 de Dezembro de 1920. Meu pai era poeta e chamava-se Artur Maria Afonso e minha mãe Palmira Rodrigues Afonso.

Sou filho segundo, meu nome seria Orlando se, no dia em que meu pai me registara, não tivesse encontrado um cigano que sugeriu chamar-me «Nadir» – «Muito Orlando será ele», disse o cigano.

Aos quatro anos pinto o meu primeiro «quadro»: um círculo vermelho na parede da sala de minha casa, de tal modo era perfeito que ninguém se atreveu a repreender-me. «Tu pintaste a parede Riri?» perguntou minha mãe. «Eu seria capaz de fazer uma roda tão bem feitinha?» respondi. E toda a minha existência se processou sob o signo do ritmo e da precisão geométrica.

Toda a actividade se concentra então na prática da pintura (2º prémio no concurso «Qual é o mais belo trecho da paisagem portuguesa?», 1937); nesse sentido me dirigo à Escola de Belas-Artes do Porto munido de meia folha de papel selado em que pedia a inscrição no curso de pintura.

Porém, aqui, segui o conselho errado do funcionário que me convenceu a inscrever-me em arquitectura. E assim surgiram novas dificuldades e novas desacertos. Eu não desenhava arquitectura; «pintava» arquitectura. Ficou conhecida a história do estirador que o Mestre Carlos Ramos me ofereceu e que devolvi (a mesa foi levada à Escola de Belas-Artes pelos meus próprios braços) quando, coincidente com a oferta, a classificação baixou.

Irredutível ao ensino, era pelo contrário, o contacto, directo com a natureza que me atraía. O Porto, com a sua arquitectura barroca, debruçada sabre o Douro impressiona-me. Percorria a cidade pintando: «Igreja dos Grilos», «Clérigos», «Batalha», «Cais da Ribeira», «Vila Nova de Gaia»...

Estreitando as relações com os meus colegas das Belas-Artes, fiz parte do grupo dos Independentes do Porto expondo em todas as suas exposições até 1946.

A minha obra «A Ribeira» do Porto deu entrada no Museu de Arte Contemporânea de Lisboa, tinha eu apenas 24 anos. No entanto a longa perseverança da minha obra afirma-se, paradoxalmente, através duma sucessão de desastres.

Em Abril de 1946 então com 25 anos de idade, parti para Paris. Levei algumas das últimas telas feitas em Portugal e que terminaria em França; eram sobretudo óleos do período irisado. Transporte difícil no pós-guerra! Ainda não se tinham restabelecido a ligação de comboios entre a Espanha e a França, atravessei pela via-férrea entre a estação de Irun e de Hendaye com mala, rolo de telas... e a pé. Uma vez em Paris obtive por intermédio de Portinari uma bolsa de estudo do Governo francês. Matriculei-me no curso de pintura da École des Beaux-Arts, habitava no Hotel des Mines no Quartier Latin e frequentava os foyers de estudantes. Pela primeira vez, por assim dizer, tomo contacto com o grande mundo da Arte.

Colaborei com o arquitecto Le Corbusier. Longos anos se passarão divididos entre um trabalho de arquitectura (a bolsa de estudo durara apenas um ano) e um trabalho de pintura. Le Corbusier, conhecendo a minha paixão pela pintura concedeu-me as manhãs livres para pintar (sem me descontar no ordenado). Servi-me algum tempo do atelier de Fernand Léger e comecei, pouco a pouco, a encontrar forma no abstraccionismo geométrico.

Os fundamentos imutáveis da estética revelam-se com mais clareza; o meu conceito das origens, da essência da arte, recebe, na assiduidade do trabalho, novas orientações.

No ano de 1948 defendi tese na cidade do Porto com um projecto executado em Paris sob a orientação de Le Corbusier onde ressaltam afirmações que geram grande polémica: «A arquitectura não é uma arte» é o tema da minha tese. «A arquitectura é uma ciência, uma elaboração de equipas» e como tal, um meio de expressão que não me satisfaz.

Nos princípios de 1949 retirei-me de Paris e passei um ano no meio das minhas pinturas; desenvolvi uma série de antigos estudos inspirados no barroco português que resultaram no meu período barroco a que se seguiu o período egípcio. Mais tarde alguém injustamente encontrou influência de Dewasne. É claro que não importa se um Nadir desconhecido seja o influente ou o influenciado. Voltei a trabalhar com Le Corbusier.

Em Dezembro de 1951 embarco em Génova para o Rio de Janeiro. Aí comecei um período de colaboração com Óscar Niemeyer; mais de três anos de dupla actividade: a necessária arquitectura e a obcecante pintura. Participei na elaboração do projecto da Exposição Comemorativa do IV Centenário da Cidade de S. Paulo.

Regressei a Paris, retomei o contacto com os artistas orientados na procura cinética e desenvolvi estudos de estética e pintura que chamei «Espacillimité». Fiz parte do grupo da Galeria Denise René, expus alguns dos meus trabalhos juntamente com Vasarely, Mortensen, Herbin, Bloc.

Paris é o grande centro da arte e por isso também acérrimo meio de promoção, de confrontação e de luta. Tudo vi, ouvi e conheci; desde a prevenção de Dewasne: «Aqui cada pintor é um pirata com um punhal entre os dentes!». Compreendo, sim: devíamos participar na vida artística de Paris, mas... não posso; o meu passado vivido «detrás dos montes», a minha educação simples contrária ao jogo social das conveniências, das considerações forçadas e dos seus intteresses subjacentes, me impedem.

Consciente da minha inadaptação social e da minha dificuldade de integração no meio artístico, refugio-me pouco a pouco num grande isolamento; acentuo o rumo da minha vida exclusivamente dedicada à criação duma obra. Desenvolvo estudos sobre a geometria que considero a essência da arte.

Uma primeira publicação – La SensibilitéPlastique – aparece em 1958 em Paris graças ao apoio de Michel Gaüzes, Madame Vaugel e Vasarely.

Na vanguarda da arte mundial expus em 1958 no Salon des Réalités Nouvelles um «Espacillimité» animado de movimento (agora exposto no Museu do Chiado) e realizei em 1959 a minha primeira grande exposição antológica, na Maison des Beaux-Arts de Paris, fruto de difíceis anos de trabalho.

Verifica-se desinteresse em relação às minhas exposições no Porto e em Lisboa. Mas eu não procurava nem a celebridade nem a fortuna. Se fossem esses os meus objectivos há muito, teria já abandonado a minha incessante procura da Arte.

Em 1965 abandono para sempre a arquitectura para me consagrar inteiramente à sua minha obra.

A elaboração e publicação duma estética absorvem-me totalmente. Sucedem-se as viagens entre Chaves e Paris onde me encontro com Roger Garaudy, Vasarely, Gaüzes. Trabalho por indicação de Garaudy em Toulouse com o esteta Pierre Bru com quem revi a forma sintáctica dos meus estudos.

Em 1968 Vasarely escreveu ao editor suíço Marcel Joray uma carta em que lhe faz uma descrição do meu trabalho. Uma vez tomado conhecimento do manuscrito a resposta de Joray é positiva; ela será entusiasta após o conhecimento da obra que o documenta.

Les Mécanismes de la Création Artistique aparecem em público; é a primeira grande monografia duma série que irei perseverantemente elaborando.

Nunca corri, como diz Marcel Joray: «a cuidar dos seus interesses», mas a arte, qual corrente caudalosa, ninguém a pode suster.

Definitivamente isolado a minha existência torna-se menos adversa. Pinto e escrevo num regular e crescente sossego. Exponho em Lisboa, Porto, Paris e Nova Iorque e um pouco por todo o mundo e sem partidos políticos fui condecorado e homenageado.

Publico em 1983, «Le Sens de l’Art», a que se seguem vários outros títulos, monografias e textos estéticos onde destaco: «Da Vida à Obra de Nadir Afonso», «Universo e o Pensamento», «Van Gogh», «O Fascínio das cidades», «Da intuição artística ao raciocínio estético», «As Artes: Erradas Crenças e Falsas Críticas» e tenho quadros espalhados por vários museus mundiais.

Não pretendo ser cientista; no entanto li, escrito por outros, o conteúdo da minha obra «Universo e o Pensamento» de especulação filosófica nas primeiras páginas dos jornais e o plagiador muito cumprimentado; assisti a intelectuais apresentarem ideias minhas sem as respectivas aspas ou referirem o meu nome de autor.

E como sempre errante e desprendido da tudo, muitos quadros desapareceram nomeadamente o meu auto-retrato, aos dezanove anos e emprestado e fotografado para «O Primeiro de Janeiro». Soube mais tarde que o quadro se encontrava em casa de Manuel de Azevedo, – do mesmo nome do director Janeiro – tentei reavê-lo mas nunca me foi devolvido. O mesmo aconteceu com o quadro muito reproduzido: Vila Nova de Gaia.

Se uma lição de moralidade pudesse ser entendida nas minhas (e noutras) memórias de artista, talvez fosse finalmente reconhecido por lei o fracasso das instituições culturais. Apoia-se e promove-se, não os verdadeiros criadores mas indivíduos insinuantes, fura-vidas que gravitam à volta das instituições. Tenho consciência que a minha obra é única, original e de dimensão universal, mas reparo que «bons artistas» não são aqueles que possuem uma obra válida mas aqueles que imitam o que de vanguarda se faz lá fora e privam com aqueles que os promovem.

Quatro temas que se conjugam e desenvolvem nos nossos três precedentes estudos e nos quais as teorias físicas da relatividade, as concepções filosóficas de idealistas e de materialistas e as teses biográficas sobre Van Gogh, são repostas em questão. Imodéstia minha? Sou português, transmontano e filho das Terras de Barroso. Aprendi de tradição a ser humilde, a louvar os mestres e a viver até aos oitenta e seis anos na simplicidade que a minha inferior condição sempre me concedeu. Um balanço da minha existência e dos trabalhos a que me devotei ressoa-me subitamente absurdo.

Assim termino o último livro ainda por publicar: «Estou certo que tarde ou cedo serão acareados à evidência do que aqui deixo escrito; e mais uma vez, espero que qualquer credenciado cientista eleve, em seu nome, estes escritos, ao nível dos postulados. Todo o cientista credenciado que tenha mais possibilidades do que o autor, em promover a divulgação da obra, será mais facilmente reconhecido».

Nadir Afonso


Frases Soltas

O homem volta-se para a geometria como as plantas se voltam para o sol: é a mesma necessidade de clareza, todas as culturas foram iluminadas pela geometria, cujas formas despertam no espírito um sentimento de exactidão e de evidência absoluta.

Nadir Afonso

sexta-feira, 22 de junho de 2007

quinta-feira, 21 de junho de 2007

Entrevista a Nadir Afonso

Nadir Afonso é nome de arquitecto. E é nome de pintor. Sem dúvida, uma referência na Pintura Portuguesa Contemporânea. Transmontano, natural de Chaves, onde nasceu em 1920. Diplomado em arquitectura pela Escola Superior de Belas Artes do Porto, estudou pintura na École des Beaux-Arts de Paris, como bolseiro do Governo francês e colaborou com o arquitecto Le Corbusier (1946-48 e 1951). Durante os três anos seguintes trabalhou no Brasil com o arquitecto Óscar Niemeyer, colaborando na elaboração dos projectos de Brasília e do IV Centenário da cidade de São Paulo. Regressou em 1954 a Paris. Abandona em 1965 a arquitectura para se dedicar totalmente à Pintura, em cujos trabalhos é visível a sua formação de arquitecto. Nadir Afonso é um dos poucos, pouquíssimos artistas, que têm acompanhado a sua obra pictórica com a publicação de dezena e meia de livros de análise dos grandes problemas da Arte, nas suas perspectivas filosóficas, estéticas, até científicas e sociológicas, livros que são de uma inegável valia, não apenas para conhecimento da génesis da sua própria pintura, mas também da problemática artística, tão controversa nos tempos de hoje. No seu último livro, «Nadir Afonso. As Artes. Erradas Crenças e Falsas Críticas», editado por Chaves Ferreira–Publicações, o arquitecto-pintor aponta algumas das mais “erradas crenças e falsas críticas”. Fixa os “princípios” que regem a sua criatividade, em que os conceitos básicos de espaço, de geometria, de código estético e sentido artístico se entrelaçam e conjugam, tendo sido as cidades o “campus” preferido de realização dos seus estudos e produção das suas obras. O crítico francês Michel Gauzes escrevia em 1970: “Através das suas pinturas, Nadir Afonso exprime o porvir de um mundo em harmonia: L’aurore des villes, Le sentiment de demaim, Heliopolis, e retém do passado o lado positivo das civilizações, as épocas dos grandes complexos urbanos, o engenho dos seus construtores...” É fascinante ouvir um homem destes. Saber o porquê do seu percurso. Conhecer as suas escolhas. Os seus projectos. As leis da estética.
N. Lima de Carvalho

Quando se matriculou em arquitectura, queria mesmo ser arquitecto?
Se recuasse no tempo, voltaria a optar pela arquitectura?É evidente que não voltaria. Não me envergonho da minha obra de arquitecto, mas confesso que a minha paixão foi sempre a pintura. Um arquitecto está sempre condicionado.

Qual a função, o papel de um arquitecto nos nossos dias?
O papel de um arquitecto é seguir a lei que rege a arquitectura: a Perfeição, qualidade do objecto cuja função responde à necessidade do sujeito.

Conheceu o trabalho de Le Corbusier e Óscar Niemeyer. Qual o maior? O que os diferenciava?
Não sei responder. Lidei durante anos com qualquer deles e apenas compreendi que ambos se consideram superiores, o que é normal entre os homens.

Brasília, que Niemeyer desenhou, não é uma cidade mais para marcianos do que para homens?Brasília é bem deste planeta. Quando em 1986 voltei a Brasília o que mais me surpreendeu e desolou foi encontrar a mesma e persistente falta de um milhão de árvores ali previsto.

Que razões o levaram a deixar a Arquitectura e a voltar-se para a Pintura?
A razão essencial reside no facto de ter erradamente reconsiderado nas palavras daquele funcionário, acima citado.Mas eu nunca deixei a pintura, eu fui sempre pintor. Mesmo quando trabalhava com Le Corbusier, as minhas manhãs eram dedicadas à pintura. Ele também pintava e lá simpatizou comigo, concedendo-me as manhãs livres para pintar, e ainda por cima sem me descontar nos honorários.

A Pintura proporcionou-lhe tudo quanto dela esperava?
Tudo aquilo que, sem sabermos bem o quê, continuamos esperando.Na Pintura ainda há algo a esperar e por descobrir, alguma corrente nova, alguma linguagem diferente?Não me parece. Na sua essência, as leis que regem a obra de arte são imutáveis. Assistimos, isso sim, a uma espécie de reciclagem: adaptação às novas tecnologias. Neste campo e com os novos avanços tecnológicos penso que poderá haver grandes possibilidades a serem tentadas na arte cinética.

Por que escolheu o abstraccionismo geométrico?
Não há escolha. A meu ver, há mais ou menos intuição dessas leis imutáveis de fonte geométrica, a que chamo “morfometria”. A representação dos objectos é secundária na obra de Arte. O abstraccionismo geométrico não é mais que uma elevação a um estado de absoluto das qualidades de harmonia, essa sim, específica na obra de Arte.

E que atractivo encontrou na pintura cinética?
O atractivo está numa tentativa de conciliar, no mesmo objecto, o ritmo da sua forma com o ritmo do seu movimento. Na altura em que me debrucei na arte cinética, os recursos tecnológicos não permitiram grandes avanços nessa área.

Em determinada altura da sua carreira começou a praticar uma pintura que chamou de Espacillimité. Em que consiste?
Espacillimité é justamente esse encontro com a relação espaço-tempo. Ele consiste numa pintura encadeada em movimento cíclico.A Pintura tem leis?A Pintura tem leis. De modo esquemático: Perfeição, Evocação, Originalidade e Harmonia. As leis primordiais estão na perfeição do objecto e na harmonia do espaço geométrico, e a lei capital, reside nessa “Morfologia” que as correlaciona.Então o que é a Pintura?A Pintura, na sua essência, é o objecto duma intuição anormal, hipersensível às leis morfométricas, quantitativas, matemáticas, sendo estas, por sua vez e por conseguinte, únicas, exactas, constantes e transmissíveis.

E a Estética?
A Estética devia ser aquilo que nunca foi: o estudo das leis que regem a obra de Arte e não aquele verbalismo que não rima com coisa nenhuma.

Acabou de publicar mais um livro, a juntar aos 20 que já escreveu. Que nova mensagem ou mensagens nos traz esse livro?
A nova mensagem “insiste no que repito ao longo da minha vida e ninguém vê ou não que ver” no subtítulo desse livro escreve: “Erradas Crenças e Falsas Críticas”.

Enumere algumas dessas erradas crenças e falsas críticas, que considera mais gritantes.
“A Arte é o espiritual tornado sensível”, Hegel; “a linguagem da alma”, René Huyghe; “a Arte é um mistério”, Einstein. As afirmações destes génios, no que se refere à Arte, não rimam com coisa nenhuma.

As novas expressões artísticas, como o vídeo, a fotografia e a instalação, têm lugar ao lado da pintura, do desenho ou da escultura?
Todas essas expressões são obras de Arte, só porque os seus autores assim entendem?
Têm lugar ao lado da pintura, do desenho ou da escultura, desde que o seu autor saiba lidar com as leis que tudo regem. O mal está aí: na falta de compreensão das normas da natureza, o autor tem tendência em considerar sagrada a desordem do seu espírito.

Diga-nos algo sobre o “fascínio das cidades”. O que o fascina nas cidades?
Aqui arriscamos o “golpe de teatro”. Pelos mais obscuros impulsos, todas as cidades me fascinam e nenhuma delas expresso, posto que na elaboração da obra, só temos olhos que fixam a morfometria, o seu absoluto.

E a sua paleta? Alguns pintores acomodam-se com quatro ou cinco cores suas preferidas. A sua paleta é, porém, muito rica e variada. Quais são as suas cores preferidas?
Novo golpe. Todas as cores são minhas preferidas, pois todas elas são passíveis de melhor jogar numa composição, excepto, por associações de ideias, o verde, se fui mordido pela serpente, e o vermelho, se fui envolvido no sangue. Assim subjectivada, qualquer cor ou forma é ressentida no erro. Compreendamos esta coisa muito simples: as leis que regem a obra de Arte são aquelas mesmas, imanentes da natureza preexistente e nada têm a ver com os nossos (sejam eles os mais sinceros) estados de alma.

Que cidade portuguesa tem mais qualidade arquitectónica, se é que alguma tem qualidade arquitectónica?
Aqui, a mesma dificuldade ao tentarmos uma resposta objectiva. Muito mal distinguimos as qualidades arquitectónicas ou urbanísticas que respondam às necessidades dos homens de épocas, lugares, meios e culturas, por vezes diferentes daquelas que em dada situação, pessoalmente, nos tocam. E aqui reside, na sua essência, a diferença entre a arquitectura regida por leis evolutivas e as Artes regidas por leis constantes, exactas, absolutas no espaço e no tempo. E talvez compreendamos melhor a razão por que só a geometria, ainda que de modo subconsciente, tanto atrai o artista.

Que cidades mais gostaria, ainda, de pintar?
É-me indiferente. Entre o viver e o pintar, é da minha casa que vejo todas as cidades. A correspondência que estas mantêm comigo apenas se expressa, supondo eu, numa evocação ou uma originalidade particular e não numa harmonia que irradie propriamente da cidade, posto que esta harmonia, que eu considero a essência da Arte, existe como especificidade latente em toda a geometria, nas formas da Natureza.

Um dia escreveu: “O artista não realiza nenhum trabalho enquanto o trabalho não realiza o artista”. Já realizou todos os seu trabalhos (artísticos) ou ainda lhe faltam alguns projectos?
Sim. Esperemos que ainda me faltem alguns circuitos de cidades em volta do meu quarto.

A Arte em Portugal está em estado de graça ou está muito mal da sua saúde?
A Arte em Portugal continua, como é normal, em estado de confusão. Seria necessário, antes de mais, educar os educadores.

E como vai de saúde a sua Fundação, em Chaves, sua terra natal?
A Fundação em Chaves prossegue segundo as posses, a boa vontade da edilidade e a boa fé dos seus munícipes, mas devagar.

Em Portugal a cultura artística é uma desgraça, não é? Se tivesse poderes para melhorar a nossa cultura artística, que medidas tomaria?
Não me parece que haja qualquer coisa de justo a fazer. Por fatalidade, não é o verdadeiro artista aquele que mais se mexe nem o mais lúcido esteta aquele que melhor encontra as medidas a tomar. Sendo a política quem pode e manda, é ela o agente que se envolve do manto da Arte como de um sudário.

Já tem “in pectore” o tema do próximo livro?
Já tenho o tema do próximo livro: “a Beleza na Arte” e “o Tempo no Universo”, sendo dado que a significação de ambos os termos carece, a meu ver, duma mesma correcção insistente. Tanto a beleza como o tempo devem ser tratados a partir de um complexo de factores; a dificuldade consiste, por um lado, em compreender a conjugação dos universais – extensão e duração – com os factores particulares – espaço e movimento – afectos ao nosso planeta, assim como a sua cadência cíclica, de cujo complexo resulta e se gera o cômputo do tempo. Por outro lado e de modo semelhante, a dificuldade reside na complexidade do sentido do “belo”. Toda a filosofia nos fala da “beleza” sem distinguir as suas coordenadas analíticas – perfeição, evocação, originalidade e harmonia – e sem alcançar a sua síntese estética quer na Natureza quer na Arte.

Não queria ser arquitecto. Queria ser pintor.
Ao ler o meu pedido de inscrição nas Belas-Artes do Porto, um funcionário daquela Escola comentou: “Então o senhor tem o curso dos liceus e vem inscrever-se em Pintura? Oh, homem, vá para arquitectura”... e eu, erradamente, reconsiderei!

Entrevista publicada no «O Primeiro de Janeiro» e «Notícias da manhã»